Tendências do Varejo

As melhores estratégias para os diversos tipos de produtos, serviços e clientes

O Brasil é um país com 183 milhões de habitantes e, portanto, dono de um dos maiores potenciais de consumo do mundo, certo? Errado, se considerarmos que 80% da população tem renda bruta menor que R$ 1,13 por dia, valor que vem caindo ano a ano. De fato, a renda mensal média das pessoas, que chegou a 6,7 salários mínimos em 1997, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), hoje não passa de 4,3 mínimos (valor referente a janeiro de 2002, última amostragem publicada pela PNAD – Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios).

Olhando mais de perto, no entanto, descobre-se que esses 80% de brasileiros, que correspondem às classes C, D e E, formam 48% do consumo nacional (R$ 389 bilhões). Além disso, apesar da renda inferior, em 80% dos domicílios da classe C sobra dinheiro no fim do mês (R$ 123 em média). A sobra de recursos acontece em todo o Brasil, com destaque para São Paulo (R$ 134 na capital e R$ 144 no interior).

Parte do empresariado já descobriu esse filão e se deu conta de que, num país onde as classes A e B estão bem abastecidas de produtos e serviços, a saída para crescer é a classe C. "É um público que tem poder de consumo de R$ 226 bilhões – a metade das classes A e B juntas – só que sem a saturação de mercado destas", afirma Fernando Barreto, vice-presidente do The Boston Consulting Group (BCG).

Financiamento – o caminho mais certo para o lucro

O acesso ao crédito rápido e fácil é a melhor forma para entrar na sacola deste público (e não necessariamente o preço final). Tomando parte desta tendência, a Secretaria de Acompanhamento Econômico (Seae), do Ministério da Fazenda, recomendou ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) a aprovação, sem restrições, da parceria entre o Banco Itaú e as Lojas Americanas para a criação de uma nova financeira. As duas empresas anunciaram no final de fevereiro deste ano, a operação que envolve a venda ao Itaú de metade do capital social da Facilita Serviços de Propaganda, pertencente às Americanas. Segundo dado divulgado em fevereiro, o capital da nova sociedade somará R$ 80 milhões.

Além deste, o Unibanco filiou-se ao PontoCred, LuizaCred, Sonae e Lojas Brasileiras; o Itaú com o Pão de Açúcar; o Carrefour agora atua junto a Cetelem. Todas essas parcerias foram criadas objetivando oferecer financiamento para clientes da classe C. Uma ótima forma de aumentar os lucros da empresa, já que a inadimplência destes serviços está entre 10% e 15%, considerada baixa, se comparada à inadimplência de lojas de rua que é de 25%.

O caso das Casas Bahia é outro ótimo exemplo de como trabalhar bem os produtos para esta classe. Hoje, a empresa possui 420 lojas em oito estados mais o Distrito Federal que faturaram mais de R$ 9 bilhões em 2004, obtendo lucro líquido de R$ 150 milhões – 70% maior que o de 2003. Enfim, eles encontraram o púbico certo e souberam oferecer o serviço certo: produtos com parcelas pequenas, a serem pagas durantes longos meses. O investimento em propaganda também foi outro ponto forte da empresa, tanto que, no último ano, resultou no prêmio Top of Mind 2004 em Loja de Departamentos, ultrapassando a C&A e Lojas Americanas.

Existem também outras formas de chegar a este cliente. Na busca pela fidelização, as redes de varejo estão oferecendo muitas vantagens para os consumidores. Entre elas, facilidade e agilidade na hora de se associar, e maior prazo de pagamento.
A Leader Magazine, por exemplo, possui atualmente 29 lojas ao todo (28 no Rio de Janeiro e 1 no Espírito Santo), e é focada no público da classe C e D. Pensando nele, a empresa criou o cartão Leader, que hoje possui 2,1 milhões de clientes. Uma estratégia que deu certo e que corresponde a 76% das vendas da empresa.

Terceira Idade como mercado potencial

Investir na terceira idade pode ser um bom negócio para as empresas, afirmou Laura Mello Machado, consultora do Banco Real para o Projeto Talento da Maturidade.

Muitas empresas não sabem, mas a terceira idade tem se mostrado um consumidor em potencial. Segundo ela, a faixa etária que mais cresce no Brasil é a de 50 anos. "As empresas precisam despertar para essa questão o quanto antes e questionar quem é o consumidor para o qual ela está desenvolvendo os seus produtos. Só assim, não correrá o risco de errar na relação produto/consumidor", disse Laura.

Toda essa preocupação se deve ao fato de que a expectativa de vida das pessoas hoje chega a 71 anos e continuará aumentando em função dos avanços tecnológicos, medicamentos e outros fatores. No Brasil, 18% da população, hoje, são de pessoas com mais de 60 anos, totalizando 8,1 milhões de idosos. Por isso, as empresas, além de estarem focadas nos públicos C, D e E, que hoje detêm 48% do consumo nacional, precisam estar observando o consumidor da terceira idade, que além de continuar ativo no mercado de trabalho, também possui renda para adquirir diversos produtos e serviços.

A Questão das Marcas Próprias

Introduzida no Brasil pelas grandes redes de supermercados, a idéia de marcas próprias foi adotada em todo o mercado. A idéia consiste em produzir produtos com a própria marca do distribuidor ou varejista do produto. Isto permite a prática de preços mais baixos que o mercado, bem como, a concentração no esforço de marketing.

"Os consumidores de menor poder aquisitivo têm menor chance de errar. Já os clientes de faixas de rendas maiores têm mais condições de experimentar novos produtos", avalia Olegário Araújo, gerente de contas da AC/Nielsen, empresa de pesquisas que realizou o 10º Estudo Anual de Marcas Próprias.

O levantamento apresentado mostra que os maiores percentuais de crescimento e compra de produtos dos supermercados com marca própria estão concentrados nos consumidores de maior renda: dos 82% que conhecem os itens mais em conta, 72% compram. Já entre os clientes de todas as faixas de renda, 59% pertencem às classes A e B. O estudo revelou também que 92% dos consumidores de marca própria recomendariam os produtos para terceiros, o que, para Araújo, prova a aceitação destes itens entre as diferentes classes de renda. Um outro dado que comprovaria esta nova tendência é que 46% dos clientes não trocariam os produtos de marca própria por similares de preços mais baixos. "O fator preço não é mais decisivo. É preciso qualidade".

Essas tendências ajudam a traçar as estratégias para os mais diversos tipos de produtos e serviços do varejo, contribuindo para uma gestão mais consciente, eficiente e preparada para o mercado em que estamos inseridos. Estar sempre atualizado com relação ao que alavanca a competitividade é e sempre será, um diferencial para quem busca destacar-se no mercado.

Vanessa Medeiros e Fernanda Corrêa

Fontes: National Retail Federation (NRF); FMI_Newsletter; Mercado & Consumo; Meio & Mensagem; Jornal Valor Econômico; Guia de Empregos; Gazeta – Rio de Janeiro


Publicado em 20/04/2005








 

 

 

 

 

 
 
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