Usabilidade:
o usuário é seu amigo
A ergonomia não impede que o objeto
seja belo. Porém, exige que ele seja confortável,
prático e funcional. Ela pensa primeiro no uso, depois
na estética. A usabilidade, por sua vez, exige a mesma
coisa, só que de sites e interfaces gráficas de
computadores, telefones celulares, PDA´s e similares
Nos últimos meses, uma palavra tem assolado todos os
textos e sites relativos a web design e e-commerce: usabilidade.
Ela não chegou sozinha, na verdade. Veio acompanhada
de outras palavras igualmente "estranhas", como agradabilidade
e prazerabilidade (pleasurability, no original). Mas, neologismos
e novidades à parte, a tal da usabilidade consegue ser,
ao mesmo tempo, o fantasma e o xodó dos profissionais
do mercado.
Enquanto alguns web designers consideram-na um repressor de
criatividade, outros a vêem como um guia para o sucesso
entre um mar de idéias que podem, ou não, dar
certo. Já os executivos não sabem bem o que pensar,
mas acham que, se usabilidade é algo que pode aumentar
a eficiência e o retorno de seu site, então é
algo com que se preocupar - e se cobrar de quem os desenvolvem.
Mas não seria mais fácil se os interessados entendessem
exatamente o que é essa tal de usabilidade? Se tivermos
ajuda de algumas situações mais comuns ao nosso
dia-a-dia, talvez fique mais fácil de entendermos. Sendo
assim, voltemos ao "mundo real" dos objetos, por uns
instantes.
Quem já não teve a experiência de falar
durante meia hora ou mais em um telefone daqueles levinhos e
modernos, de escritório, e depois ficar com os punhos
doendo, pensando que isso não acontecia com o telefone
da vovó - aquele preto, pesadão, de disco, que
faziam "tectectec" cada vez que se discava um número?
A resposta ao mistério é que o telefone da vovó
era mais adequado ao uso prolongado, por possuir - entre outras
características - uma empunhadura mais confortável
e um peso mais adequado.
Então, quer dizer que um telefone pesado pode ser mais
confortável do que um supermoderno telefonezinho pequeno,
portátil e "bonitinho"? Pergunte ao seu braço,
após falar durante mais de dez minutos em seu celular
que pesa menos de 150 gramas.
O nome dessa "coisa" que faz o telefone maior e mais
pesado ser mais confortável que o pequeno e lindo celular
de apenas vinte centímetros é a ergonomia. Uma
cadeira com uma boa ergonomia permite que você passe dez
horas sentado e ainda se sinta confortável. Já
uma caneta com ergonomia ruim, mesmo que incrivelmente bonita,
pode provocar dores nos dedos e cansaço nas mãos
ou no punho após cinco minutos de escrita. A ergonomia
não impede que o objeto seja belo. Porém, exige
que ele seja confortável, prático e funcional.
Ela pensa primeiro no uso, depois na estética. A usabilidade,
por sua vez, exige a mesma coisa, só que de sites e interfaces
gráficas de computadores, telefones celulares, PDA´s
e similares.
Podemos dizer simplesmente que usabilidade e ergonomia significam
pensar no usuário antes de qualquer outra coisa.
Certo. Todo mundo pensa em seus clientes/usuários ao
projetar seus produtos, não? Talvez a intenção
até seja essa. Mas poucos, às vezes por falta
de informação, às vezes por subestimar
a importância de um bom design, dão a importância
devida à usabilidade.
Uma história que corre entre designers afirma que o
design italiano de carros é melhor que os outros porque
desenha o carro "de dentro pra fora", ou seja, pensando
primeiro nos passageiros e depois no exterior, ao contrário
do alemão, do japonês e outros, que desenham o
veículo "de fora pra dentro", dando prioridade
à estética externa do veículo. Um site
deve ser criado da mesma forma - pensando-se primeiramente na
pessoa que irá acessá-lo. É claro que não
se deve esquecer dos interesses comerciais, culturais, sociais
ou quaisquer que sejam que levaram o site a ser desenvolvido.
Porém, se o usuário "não for com a
cara" do site, pode acabar indo tudo pro lixo.
Existem várias formas de se trabalhar a usabilidade
em sites, mas geralmente o primeiro passo é o detalhamento
ou modelagem dos clientes/usuários que irão utilizar
o site. Cria-se um modelo imaginário deste usuário
e da forma como ele irá interagir com o site. Felizmente
podemos dizer que este passo é até bastante respeitado.
Porém são os passos que se seguem os mais controversos,
pois envolvem o usuário em si, e não apenas a
idéia de quem ele é. É ai que entram os
testes e laboratórios de usabilidade, que colocam os
usuários frente a frente com o site, e colhem informações
sobre como o usuário real vê o site, quais suas
impressões e dificuldades. Não é necessário
dizer que muitas vezes o usuário real discorda em vários
pontos do usuário imaginário, o que pode causar
certos embaraços entre os envolvidos no projeto.
Porém, se esses "problemas" não surgem
durante o desenvolvimento, podem surgir quando o site for ao
ar. Sendo assim, por que não prevenir? As empresas de
perfume e refrigerantes não fazem testes durante a produção?
As cadeiras onde nos sentamos e os carros que dirigimos não
passam por testes com seus futuros usuários antes de
nos serem oferecidos? Se entendemos e defendemos que isso deve
ser feito com carros e cadeiras, por que não com nossos
sites?
Mas não existe "culpa" ou "desinformação",
existe um período de adaptação pelo qual
ainda estamos passando. A internet, a web, o comércio
virtual, ainda estamos no princípio de tudo. As formas
ideais de produção e comércio na web ainda
estão sendo descobertas, assim como as formas ideais
de se lidar com os obstáculos tecnológicos e sociais
com os quais nos deparamos todos os dias.
Todas estas prioridades, obstáculos e desafios nos fazem
pensar que devemos sempre estar correndo atrás de algo
inovador, revolucionário, quando na verdade temos apenas
que encontrar algo que funcione. Uma "killer application",
uma fórmula campeã. E o que todas estas fórmulas
ou aplicações de sucesso têm em comum é
exatamente o que não podemos nos esquecer: elas agradaram
ao seu usuário. Ele veio, viu, gostou e comprou - e,
com sorte, voltou outras vezes pra comprar mais.
Às vezes, na correria, pensamos nos usuários
como obstáculos a serem vencidos, ou nem nos lembramos
de pensar neles. E é disso que a usabilidade trata: de
ver o usuário como um amigo, um parceiro, um aliado.
De não temer o que ele tem a dizer, mesmo sabendo que
alguns processos terão que ser refeitos, pois, ao final
do projeto, teremos nas mãos um produto ou uma fórmula
campeã.
Se nos lembrarmos que o usuário é nosso aliado,
usabilidade parecerá algo natural para nós e essencial
dentro de qualquer projeto de internet, e não precisaremos
esperar o site ir ao ar pra termos a certeza de seu sucesso.
Por: André Corrêa
Publicada na Gazeta Mercantil, em 13/03/02

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