Como seduzir o usuário com novas tecnologias

Para se alcançar o sucesso desejado, é necessário entender a tecnologia e compreender seu público.

Estava lendo em um portal de usabilidade sobre o lançamento de uma invenção que, segundo seus criadores, viria a mudar o mundo. Inicialmente mantido em segredo, o lançamento do "Transporte Humano Segway" se provou uma enorme decepção. O tal "transporte" é essencialmente uma "scooter" inteligente. Um tipo de patinete motorizado sem a prancha. Aparentemente saído de um desenho dos Jetsons, faz pensar em quem exatamente vai usá-lo e como, já que ninguém nunca sentiu necessidade de parar de andar curtas distâncias (para as longas, inventamos o carro, o trem, o avião...). E é desse princípio que o Segway parte: de que as pessoas usarão uma engenhoca para ir até a padaria da esquina.

O Segway é, sem dúvida, um produto interessante sob as perspectivas da engenharia, inventividade, usabilidade e ergonomia, mas mostra a necessidade de se entender as necessidades dos usuários antes de se embarcar no desenvolvimento de um produto.

As previsões dizem que o Segway será um fracasso em termos de mercado. E não por ser um produto ruim, mas por não ir ao encontro de nenhuma necessidade real do público. É um exemplo de um produto que foi construído simplesmente porque podia ser construído.

No mundo das comunicações, o WAP foi a decepção mais recente no mundo digital. Não por ser falha, cara ou difícil de usar. O WAP não emplacou porque ninguém precisa dele. Não agora, não desta forma. Para a internet móvel dar certo - como dará em breve - mentes de todo o mundo pararam de olhar pra códigos.wml e larguras de banda e passaram a perguntar aos usuários de celular o que eles queriam daquela internet móvel. Uma das respostas mais interessantes mostra que os usuários gostariam muito de ter em seus celulares - ao invés de bancos, jornais ou cartoons - sistemas de informações sobre trânsito, mapas e funcionalidades que os ajudassem a ir de um lugar para o outro. Faz todo o sentido, já que estão em movimento, mas ninguém havia pensado nisso desta forma ainda. Ou melhor, já haviam pensado, mas colocaram tudo isso em computadores de bordo de carros. Ninguém pensou que as pessoas gostariam de ter computadores de bordo de bolso.

A TV digital está em gestação e, a todo momento, lemos sobre o sucesso iminente e/ou o fracasso possível, sobre como nada vai mudar na publicidade, ou sobre como tudo vai mudar sim senhor, porque as relações serão outras. O fato é que muitos estão pensando no quando fazer e em fazer bonito, e (novamente) se esquecendo do "como fazer" e do "pra quem fazer". Eu, particularmente, acredito que muitas coisas irão mudar na TV, mas é difícil saber o que vai mudar, e principalmente quando.

Pela primeira vez estaremos vendo a construção de uma versão 2.0, uma versão "NT" de um meio de comunicação já existente. O cinema ganhou cor e som, o rádio ganhou qualidade e se tornou portátil, mas nada se compara ao que está surgindo. A relação entre a TV e seus usuários mudará quase que completamente. Não haverá mais telespectadores. Haverá teleusuários, ou teleinteratores talvez.

Porém, essas mudanças só ocorrerão se as novidades interativas vierem ao encontro de necessidades e desejos dos (atuais) telespectadores. As primeiras experiências que têm sido feitas nas TVs por assinatura têm se mostrado interessantes para os usuários, oferecendo a estes serviços de home banking, e-mail, funcionalidades de controle da assinatura da operadora e - não poderiam faltar - vídeo games. Nenhum destes serviços é novidade (e o "campeão de audiência - o vídeo game - é velho conhecido das TVs) e é esta, exatamente, a explicação do sucesso: intimidade.

Não podemos pensar que o usuário utilizará um aparelho de interface completamente nova e diferente da velha e conhecida TV. A mudança deverá ser gradual, fazendo com que os espectadores aprendam, julguem e aprimorem a interatividade oferecida, enquanto se tornam íntimos dela como eram do antigo modelo de TV. Começamos com vídeo games e extratos on-line, e chegaremos com sucesso à publicidade e ao merchandising interativos, programação maleável e programável etc.

O importante não é fazer, mas sim como fazer. Novas tecnologias não representam sucesso garantido "per se". Para se alcançar o sucesso desejado, é necessário entender a tecnologia e entender seu público. Buscar as necessidades deste e direcionar a tecnologia para que ela atenda a essas necessidades.

Como gosto de dizer, o usuário é nosso melhor amigo, e não nosso adversário.

Por: André Corrêa
Publicado na Gazeta Mercantil, em 01/04/02












 

 

 
 
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